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    Título brasileiro invicto completa 41 anos

    Inter contra Vasco. Academia do Povo diante do Cruz-Maltino. Maracanã e Beira-Rio. A decisão do Campeonato Brasileiro de 1979 contou com todos os atrativos necessários. Duelo que colocou frente a frente duas torcidas apaixonadas, encerrou com chave de ouro os anos 70 no futebol de nosso país. Felizes os colorados e coloradas, que, há 41 anos, deleitaram-se no doce festejo destinado aos campeões.

    Confira especial produzido pela Rádio Colorada sobre o Tri:


    Ênio Andrade, de branco, e Gilberto Tim, de vermelho: comissão em 1979

    O Clube do Povo chegou em vantagem para a finalíssima de 23 de dezembro de 1979. Três dias antes, os comandados de Ênio Andrade haviam superado o Maracanã, a chuva, 60 mil pessoas e os desfalques de Falcão e Valdomiro. À ausência dos craques, curiosamente, o Inter tratou de marcar um gol para cada, ambos anotados por Chico Spina, substituto na ponta-direita, um deles com assistência de Valdir Lima, alternativa no meio de campo.

    Empolgada com a vantagem obtida na partida de ida e eufórica pela grande campanha que o Clube do Povo vinha construindo, a Maior e Melhor Torcida do Rio Grande lotou o Beira-Rio, gigante palco que naquela temporada completava 10 anos de história. Até então, nas 22 partidas que disputara pelo Nacional, o Inter somava 15 vitórias e sete empates, tendo anotado 38 gols e sofrido apenas 12. Mais do que o título, portanto, os colorados e coloradas queriam os louros da conquista invicta.

    Do outro lado, um adversário extremamente ofensivo, disposto a estragar a festa, exigia respeito. Comandante vascaíno, Oto Glória declarara, na véspera da partida, que entendia a missão carioca como difícil, mas não impossível. Em busca da taça, o técnico cruz-maltino tratou de escalar equipe bastante ofensiva, centrada nas ações do atacante Roberto Dinamite. Não contavam os visitantes, porém, que a postura resultaria em espaços excessivos para um meio de campo histórico.

    O Inter de 1979 ajudou a revolucionar o futebol brasileiro. Enquanto a geração bicampeã atuava num claro 4-3-3, esquema pensado para maximizar as ações de Valdomiro e Lula, respectivos pontas pela direita e esquerda, o Time que Nunca Perdeu variava com enorme facilidade das duas linhas de três para um meio de campo formado por quatro jogadores. O grande coringa da equipe era Mário Sérgio, sucessor de Lula na posição, mas responsável por desempenhar função completamente diferente.

    O vesgo, como ficou conhecido por sua rara habilidade de dar passes em uma direção enquanto olhava para outra, constantemente descia do trio de ataque para a região central do campo. Aproximava-se, assim, de Falcão, formando dupla capaz de superar qualquer ferrolho defensivo. A movimentação de Mário ainda confundia zagueiros e laterais rivais que, arrastados pelo movimento do camisa 11 colorado, abandonavam a linha defensiva, oferecendo espaços para elementos surpresa do lado alvirrubro. O maior deles, sem dúvidas, era Jair.

    Os termômetros marcavam 28º quando o time colorado deixou os vestiários e subiu ao campo do Beira-Rio. Com todos atletas à disposição, Ênio escalou seus 11 ideais. No gol, esteve Benítez. João Carlos, Mauro Galvão, Mauro Pastor e Cláudio Mineiro ocuparam a defesa, enquanto Falcão, Batista e Jair foram os escolhidos para a meia. O ataque, por fim, contava com Valdomiro, Bira e Mário Sérgio. De sua parte, o Vasco atuou com Leão; Orlando, Gaúcho, Ivan e Paulo César; Zé Mário, Paulo Roberto e Paulinho; Catinha, Roberto e Wilsinho.

    João Carlos, Benítez, Mauro Pastor, Falcão, Mauro Galvão, Cláudio Mineiro; Valdomiro, Jair, Bira, Batista e Mário Sérgio

    Apoiado por um Beira-Rio explosivo, o Inter empilhou chances na etapa inicial. Cedo na partida, Jair serviu lançamento primoroso para Bira, que ganhou da zaga na velocidade e, da altura da meia-lua, percebeu Leão adiantado. O centroavante tentou de cobertura, mas o goleiro exibiu excelente poder de recuperação para espalmar em escanteio. Quase o primeiro!

    Definitivamente, sobravam craques na meia-cancha colorada. Também esplendoroso, Batista exibiu grande forma na finalíssima – a exemplo do que fizera no Campeonato inteiro. Ainda na primeira metade da etapa inicial, o camisa 10 emendou um balaço da intermediária ofensiva após corte parcial da defesa vascaína. Leão, de novo, brilhou.

    O arqueiro vascaíno não tinha seu nível acompanhado pelos companheiros de ataque, que apenas assustaram Benítez quando Wilsinho, lançado por Roberto, tentou tirar proveito do montinho artilheiro para surpreender. Seguro, o paraguaio paredão colorado espalmou sem maiores problemas.

    Inevitável, o primeiro gol do Inter saiu aos 41, e ele teve a cara do time de Ênio. Com a bola em suas mãos, Benítez percebeu que Mário Sérgio recuara até a intermediária defensiva e acionou o companheiro. Postado com linhas baixas, marcando praticamente da linha central para trás, o time visitante não apertou a marcação. Genial, o camisa 11 então percebeu que, enquanto Bira prendia a dupla de zaga, Jair atacava o vazio que o próprio vesgo deixara no corredor esquerdo do ataque, e lançou o camisa 9.

    Que centroavante era Bira! Referendado à época de sua contratação pelo também matador Dadá Maravilha, o centroavante do Time que Nunca Perdeu tinha consciência de todos os movimentos que o cercavam. Assim, apenas escorou, de casquinha, para trás. Livre, quem recebeu a assistência foi Jair, que, em disparada, precisou de somente dois toques para marcar. No primeiro, fintou Leão. Depois, dentro da grande área, finalizou rasteiro em direção às desprotegidas redes. Catarse coletiva no Gigante.

    O gol destruiu de vez o psicológico da equipe vascaína. Antes do intervalo, Bira e Falcão construíram excelente tabela, que o Rei finalizou, da pequena área, de letra. Por sorte, Leão salvou com o tornozelo. Já no início do intervalo, quem brilhou foi a trave esquerda da goleira do Gigantinho. Não fosse por ela, Valdomiro decidiria, mais uma vez, um título através de suas cobranças de falta. O destino, porém, já havia escolhido seu herói, e ele atendia pelo nome de Paulo Roberto.

    Mauro Galvão (E) e Falcão (D) minutos antes da decisão

    Mário Sérgio, de novo ele, retornou até o campo de defesa na casa dos 13 minutos. Desta vez, quem atacou o espaço deixado pelo vesgo foi Cláudio Mineiro, devidamente lançado pelo companheiro de corredor. Preciso, o passe sequer cobrou domínio do lateral-esquerdo colorado, que da quina da grande área cruzou rasteiro para a entrada do retângulo pequeno, onde Bira chegava em desabalada carreira.

    Antes do centroavante, Leão apareceu para espirrar a bola até a marca do pênalti. Para azar do goleiro, apenas mais três vascaínos ocupavam da grande área visitante. Do lado do Inter, eram quatro. A bola, simpática aos craques, escolheu o cinco, que emendou chute forte, rasteiro, rasante. No canto direito, a encouraçada explodiu nas redes e, tamanha sua violência, reboteou de volta para o campo. Quando retornou, todavia, sequer foi percebida. Mais de 70 mil comemoravam o segundo gol do Clube do Povo.

    Histórico, o carnaval formado nas arquibancadas do Beira-Rio sequer lamentou a oportunidade desperdiçada por Chico Spina, após assistência de Mário Sérgio, ou vociferou contra o gol de Wilsinho, que para os visitantes descontou aos 39. O povo já havia coroado o Inter campeão, e o apito de José Favile Neto não passou de mera formalidade. Pela terceira vez na história, o Brasil era alvirrubro. Desta vez, depois de campanha inédita, única e inigualável. Campanha invicta. Campanha, legitimamente, colorada.