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    Tinga, teu Clube, do Povo, te ama!

    Há exatos 10 anos, no dia 14 de maio de 2010, Paulo César, o Tinga, era oficialmente apresentado em seu retorno ao Sport Club Internacional. Vencedor na primeira passagem, o já veterano meio-campista voltava ao clube do coração disposto a seguir escrevendo rica história com o manto colorado após um hiato de quase quatro anos. Missão difícil, considerando o que escrevera na trajetória anterior, mas atingida com sucesso. Relembre, abaixo, a carreira do ídolo no Beira-Rio!

    Tinga: colorado e campeão

    Um craque nascido em berço colorado

    Tinga chegou ao Inter com 26 anos de idade, já carregando o apelido em referência à Restinga. Tradicional bairro da zona sul da capital gaúcha, serviu-lhe de morada até o início da vida adulta, e, curiosamente, exibe muitas coincidências, em sua biografia, com o Clube do Povo. Afinal de contas, a região foi criada para servir de destino aos moradores da Ilhota, berço colorado, palco do Ground da Rua Arlindo – primeiro campo da história alvirrubra -, e área localizada na altura onde, atualmente, a Avenida Érico Veríssimo se encontra com a Praça Garibaldi e a Avenida Ipiranga.

    No início da segunda metade do século XX, políticas higienistas expulsaram da Ilhota a população humilde, operária e boêmia que vivia no bairro, entendendo que, por sua localização central, a região poderia despertar grande interesse das classes mais abastadas de nossa sociedade. Desta forma, os legítimos habitantes da área, descendentes de Tesourinha, Sylvio Pirillo, Escurinho e outros, acabaram empurrados para a zona sul, onde ergueram a Restinga. Anos depois, no encerramento de 2004, mais um filho deste DNA efervescente e popular desembarcou no Beira-Rio.


    Casamento iniciado com taça

    Chegando credenciado por passagem pelo Sporting-POR, Tinga declarou, logo em sua primeira entrevista como atleta do Clube do Povo, o sentimento de gratidão pelo empenho do Colorado em recrutá-lo. “Eu quero jogar à altura do interesse do Clube, que há um ano tentava me contratar.” Mal sabia o meio-campista que os dois próximos anos seriam intensos, dramáticos e vitoriosos a tal ponto que, quando deixasse os arredores da Padre Cacique, já estaria eternizado como um ídolo alvirrubro.

    Titular na campanha do título gaúcho de 2005, Tinga teve participação destacada na decisão do certame estadual. Na partida de ida, o meio-campista marcou o segundo gol do Inter, pegando rebote de bola que Elder Granja mandara no travessão tentando encobrir o goleiro. Decisivo, o tento foi o quarto do camisa sete no Campeonato, seu sexto no ano, garantindo ao atleta a vice-artilharia da temporada colorada até então.

    Na finalíssima, disputada fora de casa, foi Tinga quem, com magistral cruzamento, serviu Souza para que o centroavante fizesse o segundo do Inter na prorrogação, encaminhando a vitória, por 2 a 1, e o título, quarto seguido no Gauchão. Tamanho protagonismo do atleta foi reconhecido com vaga na seleção do Campeonato, em premiação organizada pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF).


    A injustiça nacional

    Tinga seguiu como um dos principais nomes colorados na campanha que levaria o Inter ao quarto título brasileiro não fosse o escândalo da ‘Máfia do Apito’. Integrante do ‘quarteto goleador’ do time de Muricy ao lado de Sobis, Fernandão e Jorge Wagner, o meio-campista viveu a temporada mais artilheira de sua carreira, muito por conta das cobranças dos colegas de elenco, como brincou em outubro daquele ano. “Fui me aperfeiçoando ao longo da carreira. Meu chute não é forte, por isso procuro colocar a bola, tirando do alcance do goleiro. Os companheiros até brincam que precisam assoprar lá de trás para a bola passar a linha do gol”

    Capaz de tirar o sorriso do rosto do meio-campista apenas os prejuízos impostos por celeradas arbitragens ao Clube do Povo. Tinga, inclusive, foi símbolo do escândalo que teve no Inter sua maior vítima quando, na antepenúltima rodada, já ocorrida a anulação de jogos conduzida por Luiz Zveiter, o Colorado gaúcho, ainda com chances reais de título, foi até São Paulo enfrentar o líder Corinthians, no Pacaembu.

    Aos 28 minutos do segundo tempo, com o escore indicando igualdade de um gol para cado lado, o camisa sete foi lançado na área em profundidade. Como sempre genial em suas infiltrações, adiantou-se aos zagueiros adversários e, logo no primeiro toque na bola, dominou fintando o goleiro Fábio Costa. Descarrilhado, o arqueiro corintiano atropelou o meio-campista com um violento carrinho. Pênalti claro, que o árbitro Márcio Rezende de Freitas não apenas deixou de assinalar, como também interpretou como simulação de Tinga, assim apresentando ao atleta o seu segundo amarelo no jogo, encerrado com o 1 a 1 no escore.


    O brilho nos grupos, o drama nas eliminatórias

    A segunda colocação no campeonato deu contornos negativos ao grande ano do Clube que, dentro de campo, fizera por merecer o título nacional e, também, escrevera bonita campanha na Sul-Americana, tornando-se a primeira equipe estrangeira a superar o Rosário Central, na Argentina, em partidas continentais, e sendo eliminado apenas para o Boca Juniors, futuro vencedor do torneio, nas quartas de final, encerradas com agregado de 4 a 2. Para a surpresa daqueles que esperavam que o abatimento fosse tomar conta do elenco colorado, contudo, a temporada de 2006 comprovou que aquele era um grupo formado por vencedores. Toda indignação e frustração foram convertidas em motivação por conquistas maiores. Referência entre os atletas tanto por sua liderança quanto pelo alto nível de futebol que apresentava, Tinga, escolhido o melhor segundo volante do Brasileirão, continuou protagonista mesmo após a chegada de Abel, que assumiu o comando da casamata alvirrubra no lugar de Muricy Ramalho.

    Titular no vice-campeonato gaúcho, o meio-campista sobrou na fase de grupos da Libertadores, brilhando na histórica virada sobre o Pumas, armando a jogada do gol de empate após desarme magistral. Infelizmente, seu embalo foi contido por lesão sofrida em confronto contra o Maracaibo, válido pela última rodada do chaveamento. Grave, a injúria afastou Tinga dos gramados por mais de um mês entre abril e maio, assim tornando o atleta um desfalque para as oitavas-de-final e, também, a primeira partida das quartas, contra a LDU. Dramática, a situação foi agravada quando, no início do segundo tempo do duelo de volta frente aos equatorianos, o camisa sete voltou a se machucar. As consequências? Mais duas semanas de afastamento e ausência nas semifinais.


    A decisão de Tinga

    Pela primeira vez em 26 anos, a segunda em seus 97 de existência, o Inter confirmou, nos últimos instantes do dia 3 de agosto, sua classificação à final da Libertadores. Sedento por minutos em campo após ser desfalque em praticamente toda a fase de eliminatórias, Tinga voltou a ficar à disposição para os confrontos da decisão. Diferenciado por sua técnica, provou-se, na final, também um verdadeiro talismã, ocupando posição de destaque nos dois confrontos.

    Se a primeira partida foi de Rafael Sobis, vale destacar que o segundo gol marcado pelo menino de Erechim surgiu após rebote de bola dividida entre Tinga e Júnior, espirrada na direção do travessão. O meio-campista colorado, colocando sua especialidade à prova, invadiu a área adversária em velocidade e recebeu excelente escorada de Fernandão. Por centímetros não bateu Rogério Ceni, mas, graças ao oportunismo do colorado e gaúcho artilheiro da noite, a oportunidade passou longe de ser lamentada.

    A mesma chance criada a partir de assistência de Fernandão que parou na trave na primeira partida, balançou o barbante da goleira defendida por Ceni na finalíssima. O Eterno Capitão colorado pegou rebote de cabeceio por ele mesmo desferido, milagrosamente defendido pelo goleiro, e, da ponta esquerda da pequena área girou e cruzou bola baixa para Tinga, que precisou se abaixar e contorcer antes de empurrar para a meta. Gol. O segundo do Inter, comemorado de maneira tão efusiva que o meio-campista chegou a levantar sua camisa vermelha para revelar mensagem religiosa que carregava por baixo do uniforme. Advertido pelo árbitro, levou o segundo amarelo no jogo.

    Coube ao Inter segurar os 30 minutos finais de partida com um a menos. Correndo por eles e por Tinga, os jogadores se defenderam com a tradicional alma colorada. O camisa sete, enquanto isso, rezava e chorava no vestiário vermelho. Seu sofrimento só acabou quando os massagistas Banha e Juarez, juntos do roupeiro Gentil, foram buscá-lo anunciando o final do jogo. Pela primeira vez em quase cem anos de história, o Inter era campeão da América, e Tinga tinha marcado o gol do título. Era herói, como merecia ser depois do absurdo vivido em novembro anterior, no Pacaembu.

    “A festa está completa. Ganhamos o mais importante. Para mim, só faltava a Libertadores. O Inter é o time que eu torço, que meus amigos todos torcem. Sofri muito quando cheguei, pois fui formado no Grêmio. Mas sou torcedor do Internacional desde criança. Este sofrimento serviu de incentivo e, agora, nosso trabalho foi coroado com este título”, declarou o então campeão da América. O troféu erguido no Beira-Rio também serviu de ponto final para a primeira passagem do atleta no clube, visto que Tinga seguiu para o Borussia Dortmund após a inesquecível e infindável noite de 16 de agosto.

    Tinga comemora o gol do título da Libertadores/Foto: Jefferson Bernardes/VipComm

    Voltou para casa e foi campeão

    Após quase quatro anos vestindo a camisa do clube alemão, suficientes para, passados 85 jogos e catorze gols, alçar Tinga ao posto de ídolo local, o meio-campista voltou para casa. Eufórica, a torcida colorada respondeu ao anúncio da contratação com grande entusiasmo, fanatismo que pôde ser percebido logo no desembarque do atleta no Aeroporto Internacional Salgado Filho, quando centenas receberam o velho conhecido com festa digna do craque que chegava.

    Por se tratar de uma contratação internacional, Tinga necessitava esperar pela abertura da janela de transferências para jogadores vindos do exterior para ter sua situação regularizada e, assim, reestrear com a camisa vermelha. Os bons ventos sopraram na direção da Padre Cacique, com o prazo de inscrições antecipado para julho. Novidade cirúrgica, uma vez que possibilitou que o meio-campista entrasse na lista de atletas colorados que disputavam a Libertadores, competição que já vivia sua fase de semifinais.

    Vestindo a camisa 16, Tinga atuou na segunda partida da fase semifinal e na finalíssima. Nesta, começou a jogada do primeiro gol colorado e quase se antecipou a Sobis para concluir cruzamento feito por Kleber. Mais uma vez, uma chance criada pelo meio-campista era aproveitada com muito oportunismo pelo atacante gaúcho. Novamente, o Inter era campeão. E Tinga, também.


    Novo ano, novo troféu

    As lesões se tornaram mais frequentes para o ídolo na temporada de 2011. A primeira aconteceu ainda em fevereiro, durante partida contra o Pelotas, no Beira-Rio, e afastou Tinga dos gramados por dois meses, período que englobou praticamente toda a fase de grupos da Libertadores e boa parte do Gauchão. Seu retorno aconteceu na semifinal da Taça Farroupilha, contra o Juventude, em partida na qual a estrela de ídolo colorado voltou a se fazer presente. De cabeça, o meio-campista marcou o gol da classificação para a final, completando cruzamento feito por Leandro Damião em jogada que contou com magistral lambreta do centroavante alvirrubro.

    Tinga ainda atuou na final do turno e no primeiro jogo da decisão do Campeonato, apenas ficando de fora da finalíssima por suspensão devido ao terceiro cartão amarelo. Diferente do que o espetacular retorno poderia sugerir, entretanto, o ano seguiu repleto de percalços para o jogador, que perdeu boa parte do Nacional lesionado. Seu momento de maior destaque no Brasileirão aconteceu nas últimas e decisivas rodadas, quando passou a atuar mais recuado, abrindo a meia-cancha colorada ao lado de Guiñazú. Por ali, foi peça importante na conquista da vaga à Libertadores seguinte.

    A temporada também reservou um título inédito ao ídolo: a Recopa Sul-Americana. Tinga enfrentou o Independiente, fora de casa, na primeira partida da decisão que consagrou o Clube do Povo bicampeão do certame continental. Além disso, ainda em 2011 o atleta participou da campanha do Inter na Copa Audi, torneio encerrado com o bronze para o Colorado.


    O fim que repetiu o começo

    Após lesão na pré-temporada, Tinga surgiu como elemento surpresa na escalação colorada para a partida de volta da pré-Libertadores de 2012, disputada contra o Once Caldas. Como de costume, marcou gol importante, virando o jogo para o Inter após completar excelente cruzamento de D’Alessandro. A partida acabaria empatada em 2 a 2, com classificação gaúcha, e o tento seria o último do camisa sete pelo Clube do Povo.

    No Gauchão, o meio-campista foi peça frequente no segundo turno e atuou nas partidas de ida e volta da decisão, contra o Caxias. Com o título, o atleta se tornou tricampeão do torneio. A finalíssima, inclusive, foi partida final de Tinga com a camisa alvirrubra. Na semana seguinte, o ídolo rescindiu amigavelmente seu contrato e seguiu para o Cruzeiro.

    Em Minas Gerais, Tinga conquistou o bicampeonato brasileiro. Também por lá, aos 37 anos, o craque encerrou, em maio de 2015, sua vitoriosa carreira. Confira a ficha técnica:

    Posição: Meio-campo
    Nascimento: 13/01/1978
    Naturalidade: Porto Alegre (RS)

    Clubes:
    1997 – 1999: Grêmio – RS
    1999: Kawasaki Frontale (JAP)
    2000: Botafogo – RJ
    2001 – 2003: Grêmio – RS
    2003 – 2005: Sporting (POR)
    2005 – 2006: Internacional
    2006 – 2010: Borussia Dortmund (ALE)
    2010 – 2012: Internacional
    2012 – 2015: Cruzeiro

    Títulos pelo Inter:
    Libertadores da América: 2006 e 2010
    Recopa Sul-Americana: 2011
    Campeonato Gaúcho: 2005, 2011 e 2012.